domingo, 7 de novembro de 2010

Folhas no Outono




É um quadro vivo, Senhor,
Neste Outono reluzente,
O vento a agitar as folhas
Dando-me lindo presente.


Na árvore elas rodam sempre
Parece que em contradança
Ao sabor da rabanada
Como móbil de criança.


As verdes ‘inda resistem…
Salta a de cor amarela
A baloiçar-se no ar
Como no mar, barco à vela.


São leves, constantemente
Rolam no chão, outonais,
A cada nova rajada
Rebolam uma vez mais.


Não sei quando vão parar
Este jogo colorido,
São de variados tons
Antes do jardim varrido.


Sobre as castanhas, vermelhas
Ficam por vezes pousadas,
Retidas pela humidade
Até parecem coladas.


Forma-se assim um tapete
Que piso com suavidade,
São irmãs que se despedem
E já despertam saudade…

Maria da Fonseca

sábado, 6 de novembro de 2010

Rosa-chá


Que linda a rosa morena
A enfeitar meu jardim!
Ontem, pálido botão,
E hoje, já estás assim.


Pelo Sol iluminadas,
Tuas pétalas macias
Brilham agora trigueiras,
A invocar fantasias.


Elegante, te revês
No canteiro entre as demais,
Porque só tu és morena,
E a atenção tu atrais.


À tardinha, o meu amor
Regressa a casa encantado.
Sentiu o teu doce aroma,
Quando passou a teu lado.


Bendita a bela roseira
Que tão linda rosa dá,
Morena a inspirar poesia,
A formosa rosa-chá!

Maria da Fonseca

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

À Minha Noiva de Artur Azevedo


Artur Azevedo
(1885-1908)


À Minha Noiva


 ' Tu és flor; as tuas pétalas
orvalho lúbrico molha;
eu sou flor que se desfolha
no verde chão do jardim.'
Têm por moda agora os líricos
versos fazer neste estilo...
— Tu és isso, eu sou aquilo,
tu és assado, eu assim...
Às negaças deste gênero,
Carlotinha, não resisto:
vou dizer que tu és isto,
que aquilo sou vou dizer;
tu és um pé de camélia,
eu sou triste pé de alface,
tu és a aurora que nasce,
eu sou fogueira a morrer.
Tu és a vaga pacífica,
eu sou a onda encrespada,
tu és tudo, eu não sou nada,
nem por descuido doutor;
tu és de Deus uma lágrima,
eu sou de suor um pingo,
eu sou no amor o gardingo,
tu Hermengarda no amor.
Os fatos restabeleçam-se,
ó dona dos pés pequenos:
eu sou homem — nada menos,
tu és mulher — nada mais;
eu sou funcionário público,
tu minha esposa bem cedo,
eu sou Artur Azevedo,
tu és Carlota Morais.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Numa Noite de Verão


A mágica noite cai
Em tons de azul sucessivos.
Sobe a Lua no crescente,
Seus raios lindos e vivos.


Desenham-se as palmeiras
No tom mais aveludado,
Com palmas verdes, serenas.
Ambiente apaixonado.


Uma ária italiana
De um romântico cantor
Ouve-se ao longe no ar.
- Dá-me a tua mão, Amor,


E passeemos p'lo Parque.
Nossos corações namoram,
Como jovens lado a lado,
Outros tempos rememoram.


O Senhor Deus se compraz
Em manter nossa harmonia,
Companheiros de uma vida
A lutar em sintonia.


A Lua lá bem no alto
Controla a noite de V'rão.
E nós os dois de mão dada
Não contemos a emoção!

Maria da Fonseca

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Linda Princesa

foto de Marlene Bunge-Kersten
 e Hans-Joachim Bunge



Em Évora ainda chove!
Toda a região festeja.
Já o calor abrandou
E toca o sino da Igreja.


O sino da Igreja toca,
Insiste com alegria,
Em marcar todas as horas,
Sempre cantando Maria.


O trovão se fez sentir
E caiu forte chuvada.
Respirar agora é fácil,
Com a atmosfera lavada.


As torres da Sé ao longe,
Cada uma com seu ‘stilo.
E o sino volta a tocar,
Meu coração mais tranquilo.


Foi esta a linda princesa
Que revi hoje à chegada.
Aos anos que te não via,
Alentejana encantada.


Da Igrejinha de S. Brás
O sino volta a chamar
Tocando as ave-marias
Nesta tarde a declinar.

Maria da Fonseca

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As Mãos da Avó



Estas mãos que escrevem versos
Foram activas, saudáveis,
Sempre livres a actuar,
Quiseram ser responsáveis.



Quando foram pequeninas
Fizeram suas maldades,
Abelhudas e roliças,
Também tiveram vontades.



Cresceram perseverantes,
Continuamente em acção,
Quer nas tarefas da casa
Ou preparando a lição.



Quantos números e letras!
Toda a vida a trabalharem,
A servir o pensamento
E a nele bem se escudarem.



Na química se esmeraram,
Vocacionadas, felizes.
Nunca foram mãos de fada,
Mas honraram as raízes.



Sujeitas ao coração,
Sempre lhe foram leais,
Facultando aos mais pequenos
Cuidados especiais.



Agora são mãos de avó
Para rezar preparadas,
A pedir graças pra todos
Ao Bom Jesus levantadas.

Maria da Fonseca


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Partir

Casa para tu fe catolica



Eu quero preparar minha partida
Sem que não me abandone o meu Senhor.
Rezar a penitência arrependida
No mundo onde sofremos por amor.



Eu quero partir sem sentir remorsos,
Sem saudade seguir o meu caminho.
Sepultar no passado meus esforços,
Minhas recordações em desalinho.



Minha memória aos ventos eu deixar
Com a certeza da missão ausente,
Com a convicção do não regressar.



Quero partir, andando sempre em frente,
E este meu coração só entregar
A quem por ele vele eternamente!

Maria da Fonseca