domingo, 14 de novembro de 2010

Render-se à Poesia

Impressão: Nascer do Sol
Quadro de Claude Monet

 
Haver a ideia concisa
Do verso que vai nascer,
Ao pegar com mão precisa
Na pena para o escrever


Não parece concebível,
Se a poesia é sentimento
De um coração sensível
A inspirar o pensamento,


Como carícia de amor
Ou lágrima de saudade,
Angústia de amarga dor
Ou abraço de amizade.


O cérebro assim recebe
As sensações transmitidas
E as palavras que concebe
São as nossas preferidas.


Com cuidado encontradas
Para o sentir revelar
São por isso muito amadas
E pra com carinho usar.


O poema não termina
Com o querer do poeta,
Conhece bem sua sina
De alma sempre inquieta.


O leitor que compreende
A palavra apaixonada
À poesia ele se rende,
Arte linda, abençoada!

Maria da Fonseca


sábado, 13 de novembro de 2010

Pertenço a Ti, Natureza


Pertenço a ti, Natureza,
Como vós, filhos de Deus!
Nunca sozinha serei
Ao lado dos irmãos meus.


Eu pertenço-vos enquanto
Todos vós me pertenceis.
Nossa origem foi a mesma,
Variados os papéis.


A vida vive em redor,
Em toda a parte ela habita.
O nosso Deus projectou
E criou-a infinita.


Venho rogar ao Senhor,
Que de mim se compadeça,
Concedendo-me outras vidas,
Em que a musa não esmoreça.


Sobrevivo a dar-Lhe graças
P’lo mundo e sua beleza.
Minha alegria é imensa
Perante a irmã Natureza.


Sei que dela faço parte
E jamais a deixarei.
Deus, o Todo-Poderoso,
Agora e sempre amarei.

Maria da Fonseca


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Ritual do Café de Ilona Bastos

foto de Ilona Bastos

O Ritual do Café

Estampa-se o sol em delicados raios
Sobre o mármore branco e liso da cozinha.

Suavemente me debruço e uma porta abro,
Recolho a chávena fina e o florido prato.

Ergo o meu braço e num voo livre,
No gesto de um armário desvendar,
Colho o nobre pó de inebriante aroma.

Alongo a mão que a gaveta encontra,
E dela escolho, enfim, a colher mais bela,
Brilhante, pequena, com terno recorte.

Tudo coloco em ordem e harmonia:
O prato tranquilo e a expectante chávena,
Nesta, o torrado grão moído, de castanho intenso.

No açúcar rico, centro o meu cuidado,
A montanha branca transportando, pura,
Em bojuda prata que doce se inclina.

E luzem cristais em cascata linda!

Depois, a água borbulhante, quente,
A mistura inunda, dissolvendo-a
Em espirais de espuma que a colher adorna.

Café! Café! Precioso encanto!

Em dégagé devant te cumprimento,
Os meus braços lanço em acolhimento grato.

Da janela aberta me acerco então.

Tão bela é a vista que o Outono pinta no jardim!
Castanho da terra e verde das plantas unem-se
À água que brilha em bebedouro antigo.

Aspiro, feliz, da manhã tranquila, o seu odor
A quente café e à relva orvalhada.
Olho o céu e sorvo um gole, outro e outro.

E assim me quedo, por instantes longos.
Entre o prazer forte do café e a doçura da manhã
Mais um dia de vida se inicia!

Ilona Bastos


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

No Dia de S. Martinho

foto de Ilona Bastos


Continua o tempo lindo
A envolver o nosso ninho.
Claro, sereno e quente,
Mesmo antes do S. Martinho.


Se estivesse neste clima,
Nosso Santo milagreiro
Não repartiria a capa
Com o pobre caminheiro.


Virado pra nós o Sol,
Enquanto há folhas douradas
A esvoaçar pelo ar
Secas, livres, encantadas.


Farão parte do magusto,
Castanhas apetitosas,
Bem assadas na fogueira
A estalarem bem gulosas.


E haverá a água-pé
A dar alegria à festa.
Talvez até haja baile,
Cantigas em vez da sesta.


A tradição desse dia
De S. Martinho chamado,
Ao Senhor agradecemos
Por ser sempre abençoado!

Maria da Fonseca

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Flor da Buganvília



De quatro pétalas brancas
Vi a flor da buganvília,
Que enfeita as lindas ramadas
Com as outras da família.


Sempre são de cor vermelha
Ou lilás, ou rosa forte,
Mas num branco imaculado
Considerei minha sorte.


Surpresa de tal maneira,
Eu fiquei nessa manhã,
Que te quis mostrar à tarde
A pureza da cristã.


Seguimos p’la rua fora,
Juntos como de mão dada,
Nossos corações tranquilos
E nossa alma apaixonada.


Inda o Sol iluminava
Com tonalidade rosa
As árvores do jardim.
Laivos de luz radiosa!


E a branca ramada em flor
Surgiu no nosso caminho,
Fletindo ao sabor do vento,
A agradecer o carinho.

Maria da Fonseca


terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Recordar o Rio de Janeiro



A lembrança da Colombo evoco
Do tempo em que no Rio eu vivi...
Ornatos, 'spelhos, o requinte invoco
Da Arte Nova, que encontrei ali.


Com um bendito pincel eu retoco
A visão desse quadro que antevi,
Quando sentado à mesa sob um foco,
O amor me 'sperava - o reconheci!


Mais tarde voltámos com nossas filhas,
Revendo a 'special sala de chá
A idear chapéus, leques, redondilhas...


E a essa sucessão de maravilhas,
Aromas e delícias, que mais há?
Memória que connosco tu partilhas...

Maria da Fonseca

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Palavras



Lembro vividas histórias
De manhã, ao despertar.
Palavras, versos, memórias,
Sinto-me a bem recordar.


Olhando pela janela,
Surge-me rima inspirada.
O Sol dá a cor amarela
E o tom é o da passarada.


Amo as palavras pequenas,
Vogais abertas, sinceras,
Mar, amor, céu e sirenas,
Esquecendo as mais austeras.

Com palavras saltitantes
‘Screvo finas redondilhas,
Que pretendo elegantes,
Adoráveis como filhas.


A brancura do papel
Breve fica maculada,
Palavras sabendo a mel
Da minha alma apaixonada.

Maria da Fonseca