quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Vendaval



Quadro de Van Gogh

Quisemos ficar em casa
Por causa do vendaval,
Pois o vento até uivava
Pela fresta do umbral.


Sucediam-se as rajadas,
Bátegas em confusão.
Bailavam até as árvores,
Desordem em profusão.


A relva mal aparada
Ondulava ao sabor
De cada lufada de ar,
Que investia com vigor.


A chuva desgovernada
Em toda a parte batia.
Previam mesmo pior
Lá para o final do dia.


Tanto choveu, meus Amores
Na tarde triste e cinzenta!
E na hora de voltarem,
Mor cuidado me atormenta.


Saber se chegastes bem
À casa que é vosso lar,
Não tenha a chuva afectado
A família ao regressar.

Maria da Fonseca




quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Aproxima-se o Natal


Maria, doce Menina,
Predestinada, querida,
Para Mãe do Redentor,
Há dois mil anos ‘scolhida,

 
Aceitaste, humilde e pura,
Sem perder a virgindade,
O que o Anjo anunciou:
- Viver a maternidade.

 
Mãe do Menino que é nosso,
Nascido pra nos salvar,
Naquela gruta em Belém,
Recebeste-O a rezar.

 
Ajoelhada, Tu vives
Nos Presépios, com Amor,
Adorando para sempre
O Teu Filho e Teu Senhor.

 
Francisco te eternizou,
E a Jesus e a S. José,
Nessa memória sagrada
E base da nossa Fé.

 
O Natal já se aproxima.
Tu serás Mãe novamente.
Que o Filho de Deus, Amado,
Nos proteja, Omnipotente.

Maria da Fonseca




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Meu Senhor Compadecido



Numa mística e alva capelinha,
Onde a imagem de Cristo resplandece,
Ergue-se para o Céu a ingénua prece
Das crianças, rezando a ladaínha.


Como, em suave canto de avezinhas,
Imploram ao Senhor sua benesse,
Pra dar a Paz ao mundo que padece,
E seu antigo lar às andorinhas.


Suas vozes tão puras e cantantes
Comovem o Bom Deus Nosso Senhor,
Que, saudoso, deseja por instantes,


Regressar à Terra, o Bom Pastor,
A pregar a Doutrina como dantes,
E a todos envolver em Seu Amor.

Maria da Fonseca

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Amarílis



Ao entrar no teu jardim,
Flores a me surpreender
‘Stavam voltadas pra mim
Como se as fosse aquecer.



Já ia um pouco atrasada,
Mas parei feliz, surpresa.
Sedosas, brancas, raiadas
De vermelho, que lindeza!



Tendes nome de pastora
Amarílis vos chamais.
Na écloga encantadora
Sois uma das principais.



À tardinha vos revi
Sob o golpe da nortada.
Contigo estava eu ali,
P’la ternura conquistada.

Maria da Fonseca


domingo, 5 de dezembro de 2010

Caminho do Destino



Partir talvez não fosse a minha crença,
Talvez o desejasse, mas temesse.
O certo é que parti sem mais detença
Em busca d’algo que me pertencesse.


Ao azul, ao mar, ao vento indaguei
Qual o caminho para o meu destino,
Com’ às estrelas da noite implorei
Que norteassem para o bem, meu tino.


Pelo ar voei pra encontrar teu mundo,
Pressurosa andei para te alcançar!
Não previa eu o sentir profundo
Que me inspiraria a te procurar!


O amor chegou, eu me apaixonei.
Tinha para te dar tudo o que sentia
Tu tinhas pra mim o que em ti amei,
Coração viril que me surpreendia.


Assim os dois partimos de mão dada,
Confiantes na vida que esperava,
A idealizar enfim nossa chegada
Ao ponto de partida. Regressava!

Maria da Fonseca

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Vôo de Maria João Costa


O VÔO

I
Esta ventania nem parece do Outono,
Tão límpida e viva, que é.
Voam as pétalas como asas de papoilas,
Voam as verdes folhas e os olhares de face em face.
Voa a intenção, o beijo e o desejo,
Em pleno rodopio,
Ninguém sabe onde irão pousar.
Uma leveza rápida, uma risada,
A natureza e o presente, em pleno movimento.

II
Mas, de repente, levanta-se a poeira,
fechamos os olhos, perdemos o horizonte,
é difícil respirar.
Da serenidade, fez-se a tormenta,
Da terra mãe, fez-se o abismo.
Sem norte ou sul, para orientar,
Paramos na voragem da tempestade perfeita,
Ancorados na certeza de não termos para onde ir,
Ali ficamos, à espera do futuro.

III
Acordamos, com o sol.
Não há vento, e no chão, uma mistura
De pó e pétalas, vermelhas como chamas,
Como asas de papoilas.
Vemos também vários pássaros,
Que descansam ao nosso lado.
Também eles
Reúnem forças, para recomeçar a voar.

Maria João Costa


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Passer domesticus



Porque és sempre tão amigo,
Meu pardal domesticado?
Duma fogosa espécie
A viver ao nosso lado!


Agora sabes que entrámos,
Temos a janela aberta.
Chegas com forte piado,
A mostrar que estás alerta.


Sempre aos pulos a espreitar,
E não pareces ter medo.
Teu ângulo de visão
Constitui o teu segredo.


Se o nosso gesto te espanta,
Aos saltos vais-te afastando.
Com teu olhar muito vivo,
Notas tudo, como e quando.


Logo seguimos co'a vista
Ligeiro o teu bater de asa.
Empoleiras-te na flor
Do ramo que é a tua casa.


Dizem que causas estragos
A comer grãos e rebentos.
Mas serves-te do meu prato,
Se eu deixar por uns momentos!


Dedicado como és
Bem te queremos, pardal.
Alegras a nossa vida
Com esse ar tão jovial!

Maria da Fonseca