sábado, 3 de dezembro de 2011

Pedra Filosofal de António Gedeão



António Gedeão
(1906-1997)


Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Os Pombos da Avenida


Num belo dia de Outono,
Descendo a linda Avenida,
Deparei com esta imagem,
Que me deixou comovida.


Os pombinhos saltitavam,
Alegres num grande afã,
À procura de alimento,
Nessa bonita manhã.



Encontrei um bebedouro,
Bem no meio do caminho,
Que mata a sede a quem passa,
Com leveza e com carinho.



Mas que faziam os pombos
Muito vivos e aos pulitos?
Bebiam no jato de água
Com seus nervosos biquitos.



E numa prece ao Bom Deus,
Agradeci, no momento,
O não haver exceções
Debaixo do firmamento.

Maria da Fonseca


domingo, 20 de novembro de 2011

Na Fazenda da Pedra





Nessa Fazenda encantada
Lindos pomares eu vi,
Laranja lima dourada
Pelo Sol que brilha aí.


A mangueira carregada
De frutos grandes e belos
De cor rosa arroxeada
E por dentro amarelos.


As palmeiras, os coqueiros
A atraírem meu olhar,
E os cocos, dos primeiros
A agradar ao paladar.


E os outros frutos, bem
Verdes, carnudos, rugosos,
Eram goiabas, porém,
Ainda não ‘stavam gostosos.


Mas apelei ao Patrono
Que adoçasse os seus destinos.

Sei que estão no Outono,
É o tempo dos citrinos.


Voaram aves p’los ares!
Era hora do Cafezinho.
Abençoados pomares
Me encantaram no caminho…
 Maria da Fonseca


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Folhas de Outono





'Stá o outono agreste
Neste sábado sem Sol,
Mais um beijo até me deste
Pois não canta o rouxinol.


Agora não chove, amor,
Mas libertas pelo vento
Andam as folhas no ar,
Balançando a contento.


'Inda têm folha as árvores
Apesar da já caída,
E nem toda ela é verde
Mas de cor indefinida.


O matizado ressalta
No entrelaçar dos ramos.
Bem próximo 'stá o dia,
Só as perenes cantamos.


O outono é mesmo assim
Com chuva e golpes de ar,
Árvores perdendo a folha,
Os dias a minguar.


Espero que o tempo passe,
E nós os dois de mãos dadas
Olhemos na primavera
Folhas novas, renovadas.

Maria da Fonseca


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Verão de S. Martinho



É o verão de S. Martinho
De clima tão temperado!
Como o dia esteve lindo
Neste país adorado!


Do límpido céu azul,
Caía a tarde dourada.
O Sol queria deitar-se
Em posição ajustada.


Nos quintais das moradias,
Os frutos alaranjados,
As árvores enfeitavam,
Redondos, iluminados.


O silêncio era cortado
Pelos diversos latidos
Dos fortes cães de guarda,
Curiosos, destemidos.

Como ainda temos flores,
Coloridas e formosas!
Encheram-se os meus olhos
De campaínhas e rosas!


E a Natureza tão linda
Inspira o meu versejar.
Eu queria ser poeta
Para melhor a cantar.

Maria da Fonseca

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Apelo ao Senhor




Meu coração dolorido
Pelas passagens da vida,
O dia descolorido,
A chuva já prometida.

Sinto-me ausente, ferida,
O clima por companheiro.
Minha lágrima caída,
Esconde-a o nevoeiro.

E já começa a chover
E a molhar a minha face.
Posso o choro não reter
  Nesta hora de impasse...

Momentos de espera e reza,
Os que vivo a seguir.
Apelo pra quem me preza,
Ó meu Deus, vou reagir.

Partir pra aí sem demora
Como o coração deseja?!
Poder alcançar na hora
A solução benfazeja?!

Minha alma sente demais
Como mãe e como avó!
Meu Senhor, protege-os mais,
Dos que sofrem, tende dó!

Maria da Fonseca


domingo, 6 de novembro de 2011

Convite à Oração




Se tu sentes, minha Amiga,
Que te conforta rezar,
Ergue ao Senhor a tua alma
E não cesses de O louvar.



Se sentes profundo anseio
Partilhar o teu sofrer,
Exprime-o em oração
Nisso empenha todo o ser.



Se sentes que a tua vida
Renasce com devoção,
Ao longo de todo o dia
Deixa orar teu coração.



E logo que em Deus pensares
Te sentirás mais feliz.
Dá-lhe pois todas as graças
P´lo bem que sempre te quis!

Maria da Fonseca