sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Linha do Horizonte

Praia da Rocha

Recordando que a linha do horizonte é, por definição, a linha de contacto aparente entre o Céu e a Terra, permaneço diante do Oceano soberbo, limitado por uma linha curva perfeita.
Esta visão sempre me encanta ano após ano. Não me lembro de outra linha do horizonte tão nítida como esta. Transparência rara. O Senhor a cria com seu divino compasso e não permite que seja maculada. É imperceptível a olho nu qualquer alteração na pureza dessa curva. Agora não existem dúvidas quanto à afirmação de a Terra ser esférica. Mas aqui até a criança que brinca na praia compreenderia a antiga justificação.
Não se vislumbra qualquer objecto vindo do Sul que afecte a bela linha imaginária que separa o mar profundo tinto de azul forte do céu azul celeste límpido sem mancha. Cair da tarde magnífico a transmitir serenidade, poesia!
Se do lado de cá vemos barcos, velas, gaivotas pousadas onde o Sol ainda ilumina e banhistas retardatários, para lá do horizonte só se nos apresenta o que a imaginação do poeta conceber.
Procurando melhor, reparo em duas faixas, uma rosada e outra lilacínea que se desenvolvem paralelamente à linha do horizonte. Quanto mais me afirmo mais a cor lilás se propaga elevando-se no céu de maneira a desaparecer a luz. É o Sol que se está a pôr. Muito breve chegará a noite e a saudade da maravilhosa vista que desfrutei sobre o Atlântico.
Se Deus assim o quiser amanhã nascerá um novo dia!

Maria da Fonseca

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ato de Fé


Defender uma constante
Não parece racional.
No mundo em que nós vivemos
Nada se mantém igual.


O Homem busca a Verdade,
Pesquisa, estuda, compara,
Pra obter uma certeza,
Recorre a fórmula rara.


Nosso alfabeto não chega,
Os integrais são menores.
E seu cérebro não para
Na ânsia de pormenores.


Pretende o mais que perfeito,
Atingir não sei bem quê,
Pra descobrir o que é simples
Mas não sabemos porquê!


Não encontramos mais Vida
No Universo profundo.
Não há iguais condições
Noutros astros, noutro mundo.


Porque estamos nós aqui,
Neste momento presentes,
A procurar subsistir?
Não será por sermos crentes?!


Devemos a nossa vida
A um eterno ato de amor.
Divina é a coincidência
De sermos teus, Criador.


E todos nós Vos louvamos,
Ser futuro é a Esperança.
A Luz que de Ti dimana
Dá-nos toda a confiança.

Maria da Fonseca

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A meu Pai


                             Retrato de Antero de Quental                              
                            Biblioteca BE/CRE de Celorico de Basto                             

“Sonho-me às vezes rei nalguma ilha”.
Se o poema me dá tanto prazer,
Meu coração não deixa de doer
Com a saudade imensa duma filha.

Recitavas pra mim, que maravilha
Dares-me assim Antero a conhecer.
Jamais eu deixaria de reter
As emoções vividas em partilha.

Vibro de novo, ao escutar agora
Versos que te ouvi declamar outrora
E que eu mantive n’alma adormecidos.

Afasto-me daqui por um momento
Até onde me leva o pensamento
E é a tua voz que encanta os meus sentidos.

Maria da Fonseca






SONHO ORIENTAL


Antero de Quental



Sonho-me às vezes rei nalguma ilha,
Muito longe nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...


O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com  finas ondas de escumilha...


E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,


Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Margarida


São flores de todo o tempo,
Espontâneas margaridas
A inspirar aos poetas
Suas rimas coloridas.


Em qualquer ‘stação do ano
Surgem sem ser semeadas,
De corolas amarelas
Para o Sol sempre voltadas.


Agora depois da chuva
E da bonança chegar,
Salpicam os verdes prados.
Nosso Outono a encantar!


Puras, modestas florzinhas
Tão alegres, pequeninas,
Seduzidas pela luz,
Formosas que nem meninas.


À tarde as pétalas fecham,
Até julgo que murcharam.
Mas de manhã resplandecem,
Com alegria acordaram.


A Deus Pai eu agradeço
Por mais um dia de vida.
Das flores a mais devota
É decerto a margarida.

Maria da Fonseca

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Elogio do Sol

Pôr do sol em Creta
Foto de Luiza Melo


Ao bom Deus eu agradeço
Cada dia, o teu nascer.
Iluminas o meu lar
Bem cedo, ao amanhecer.

Só tu és fonte de vida
De tudo o que nos rodeia.
Agradece ao Nosso Pai
A missão que formoseia.

Dás calor, dás alegria,
Enquanto Deus o quiser.
Investes na Natureza,
Em cada um e qualquer.

À tardinha tu descais
Na rota do teu poente.
Cresce a saudade e o desejo
De te rever novamente.

Vais brilhar no outro lado
E acalentar outros lares.
Toda a Terra roda enfim
Pra todos acompanhares.

E o dia sucede à noite
Em ânsia bem conseguida.
Deus vele sempre por ti,
Astro-rei da nossa vida!

Maria da Fonseca

domingo, 10 de outubro de 2010

Outono Rutilante

Foto de Ilona Bastos


Há pouco tempo chovia
E o céu estava forrado.
Agora o Sol descobriu,
Ficou tudo iluminado!

Meio despidas, as árvores
Transmitem-nos a magia
Dum Outono rutilante,
Com assomos de alegria.

Na paz da bela manhã,
O frio já se faz sentir.
E o vento, mesmo ligeiro,
Põe as folhas a bulir.

De lindas gotas radiosas,
Elas luzem, salpicadas.
Cobrem o chão às centenas,
De vários tons, matizadas.

Algumas são ainda verdes,
Mas no reverso, amarelas.
Umas já acastanhadas,
E outras vermelhas, singelas.

Um momento adorável,
Que breve se perderá.
Neste poema, retê-lo,
Minha alma suavizará.

Maria da Fonseca

sábado, 9 de outubro de 2010

Viver Poesia

 Capela de S. Vicente na Ilha do Pico - Açores
foto de Luiza Melo

Eu sempre te amei Poesia
Desde que de ti me lembro.
Meu saudoso Pai, ouvia,
A recitar o relembro,
Seu estilo me envolvia!


Com João de Deus eu li
As minhas letras primeiras,
E seus versos aprendi.
Mal chegava às carteiras,
Tão pequena os conheci!



De Augusto Gil, o Passeio
A cantar o nosso Santo
Foi o meu maior enleio.
De criança, meu encanto,
Recitei-o no recreio.


E mais tarde, amei Camões,
Redondilhas rendilhadas,
Lirismo nos corações,
Palavras apaixonadas
Em sonetos e canções.


Memórias, eu guardo tantas
De Antero e de Junqueiro,
Da Judia em terras santas,
Sentir de Tomás Ribeiro,
De Garrett – sei lá quantas!


Agora leio Sofia
E dedico-me a Pessoa.
De Quintana, a nostalgia
Me comove e ressoa
Nesta alma em sintonia.


Bela a magia que sinto
Em te viver a louvar,
Maior só o meu instinto
De singelo poetar
Que no coração pressinto!

Maria da Fonseca