sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Pena e o Tinteiro de Marquesa de Alorna


Marquesa de Alorna
(1750-1839)


A Pena e o Tinteiro


Uma pena, presumida
De escrever grandes sentenças,
Falava das suas obras
Tão sublimes como extensas.



- "Sem mim, - disse ela ao tinteiro -
Pouca figura farias:
Cheio de um licor imundo,
Sem mim, triste, que serias?"



O tinteiro inspirado
Vazou logo a tinta fora,
E voltou-se para a pena,
Dizendo-lhe: - "Escreve agora!"



Assim responde aos ingratos
Muitas vezes a razão:
Muita gente há como a pena,
Como o tinteiro outros são.

Marquesa de Alorna


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Retalhos da Vida


Quadro de Claude Monet

Minha manta tem retalhos
Azuis, alegres, floridos,
Entre milhentos trabalhos
Pelo destino reunidos.



Os que foram mais pesados
Surgiram neutros, cinzentos.
Cosi-os mais espaçados,
Pressurosa, sem lamentos.



Se uma lágrima caía
Sobre um retalho da vida,
Minha agulha a compreendia,
Ao se afastar comovida.



E a manta com pontos lassos
Ficou mais fina, mais frágil.
Não pesa tanto nos braços,
Ainda me sinto ágil!



Agora vou-a alindando
Com linha feita de amor.
Nos negros eu vou bordando
Uma saudade, uma flor.



Quero levá-la comigo
Já esgaçada, sem surpresa.
O Senhor, meu grande Amigo,
Me perdoa, com certeza!

Maria da Fonseca

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Magnólia



Espera a doce magnólia
Carregada de rebentos
Que o Janeiro vá embora
Com seus dias friorentos.


Será pois em Fevereiro
Que a nobre mãe Natureza
Fará brotar lindas flores
Nas arves da redondeza.


E por assim me encontrar
Ao norte do nosso mundo
Aguardo com confiança
O que com Fé eu difundo.


Quão rigoroso o Inverno
Pra nós que somos humanos
Mas as plantas se enaltecem
De Deus cumprindo seus planos.


E a magnólia fecunda
Que é prova disso Senhor
Irá rescender magnífica
Cheia de flores de Amor!

Maria da Fonseca


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sol da minha Vida



 Os teus olhos ‘stive a olhar
Para ver se acordavas,
Davas p’la minha presença,
Teu rosto iluminavas.



Porque sereno dormias,
Desisti de te chamar.
Talvez sonhasses comigo
E eu me deixei encantar.



Já ia alta a manhã,
Afastei-me silenciosa.
Lá fora o nevoeiro
Tinha aparência chuvosa.



A pressentir meu pensar
Mui breve tu acordaste.
Procurou-me o teu olhar
E um sorriso me ofertaste.



Alegrou-se a nossa casa
Na manhã húmida e triste.
O meu Sol nasceu aquando
Tu, meu amor, me sorriste.

Maria da Fonseca



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Como num Conto de Fadas - Bruxelas ; Grand'Place




- Entrei num conto de fadas! -
Exclamou a minha filha.
Levava a Bebé ao colo
E o mano seguia a trilha.


A noite era de encantar.
Lindas torres esfumadas
Alongavam-se num céu
De baixas nuvens rosadas.


A combinação das luzes,
Azuladas e amarelas,
A realçar nos palácios,
As suas linhas mais belas.


E como flocos de neve,
Duma suave pureza,
Caía um leve chuvisco,
Presente da Natureza.


Todos nós, nesse momento,
Vivemos a fantasia
Dum lindo conto de Andersen,
Castelos, fadas, magia...


Eu queria ter talento
Para cantar o que vi.
Só não calo o coração,
Pelo encanto que senti.

Maria da Fonseca


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

No Rossio eram Gaivotas de Ilona Bastos



No Rossio eram Gaivotas

São os pombos, os melros e os pardais
os velhos, os novos e outras gentes
as flores, as bancas e os jornais
as fontes e seus jorros transparentes
as lojas, os cafés, as esplanadas
os turistas, os apressados, os indolentes
os gritos, os sussurros, as risadas
as verdes copas e as castanhas quentes


Porque assim é
e sempre foi na realidade...


Mas neste início de uma tarde calma
azul o céu, brilhante o sol, sereno o ar
tudo em redor ganhou uma nova alma
pois no Rossio eram gaivotas a voar.

Ilona Bastos

domingo, 23 de janeiro de 2011

Cai a Tarde no Jardim




Cai a tarde no jardim.
Faz parte da fantasia,
Que serena a minha alma,
Um concerto em sintonia.


À bela canção de amor
Prende-se o vivo gorjeio
Dos alegres passarinhos,
Saltitando em seu recreio.


E a cair sobre o ramo
Da verde árvore, frondosa,
Deixa-o a balouçar,
Uma ave graciosa,


Logo seguida p'las outras,
Em rodopio a brincarem.
A cena torna-se encanto
Pra meus olhos deslumbrarem.


A beleza do momento
Enternece o coração.
Será milagre eu viver
E sentir tal emoção?!


Milagre é a existência
De tudo o que me rodeia.
Cai a tarde no jardim.
Será Deus que me premeia?!

Maria da Fonseca