quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sobre uma Flor...

 
 
 


Não me parece viável
Colher a flor anilada,
Que permanece amável,
Suspensa de uma ramada.

 
Ao longe é como uma rosa,
Mas se a posso ver de perto
É ainda mais formosa,
Cacho de flores aberto.

 
Aplicá-la no poema
É pois despropositado,
Perder-se-ia o meu tema,
Antes de o ter terminado.

 
Em breve ela murcharia.
Dar-me-ia tal desgosto,
Que presto eu deixaria
De a cantar, a meu gosto.
 

Assim, ainda a verei
Enquanto o v'rão permitir,
Da janela a espreitarei
Entre irmãs a competir.
 
Maria da Fonseca


terça-feira, 15 de julho de 2014

Flores Silvestres

 
 

As florzinhas amarelas,
De corolas pequeninas,
Surgem na berma, singelas,
Alegres que nem meninas.

  
Outras de hastes flexíveis
Dançam ao sabor do vento,
Delicadas e sensíveis,
Apelam ao sentimento.

  
Há também as aniladas,
Nova pose, mais perfeitas,
Parecem até plantadas
Por jovens mãos escorreitas.

 
Na verdade são silvestres,
O Senhor, seu jardineiro,
Espalha as flores campestres
A enfeitar o mundo inteiro.

 
Enquanto O puder louvar
Pelos dons da Criação
Nunca O deixarei de amar
E rezar minha oração.
 
 
Assim ao subir a escada
A dar-me o vento no rosto,
Sinto-me mais animada,
P´la vida tenho mais gosto!
 
Maria Fonseca


sábado, 24 de maio de 2014

Rosas

                                                                               
 
 
Eu quero cantar as rosas
Por tão lindas elas serem.
Brancas, rosa ou vermelhas,
Belas cores me of'recerem.
 

Onde estão, elas encantam,
Quer no quintal da vizinha,
Na sebe da viscondessa,
Ou na antiga capelinha.
 

Também há quem as coloque
Nas campas dos mais queridos,
Porque eram as preferidas,
Em vários tons coloridos.
 

 
Têm espinhos, eu sei,
Mas não s'rá essa a razão
Pra deixar de as admirar,
Gratas ao meu coração.
 
 
Reverso tem a moeda,
O gelo pode queimar.
Não há amor sem ciúme
E até o doce, amargar.
 
 
Rosas não há sem espinhos,
Mas, de pétalas macias
Agradecem ao bom Deus
A vida, todos os dias.
 
Maria da Fonseca

sábado, 3 de maio de 2014

Minha Mãe, Minha Mãe! Poema de Guerra Junqueiro

 
 
Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!...

(...)

A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira,
Como junto dum leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo de oliveira!
 
Guerra Junqueiro
(1850 - 1923)
 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Lua Inspiradora

 
 
 
 
A lua branca, além,
Quando há pouco entardeceu,
Tal, o Poeta a cantou,
Ia em triunfo ao céu.
 
 
Como a alma de um justo,
Pura, terna, radiosa,
Erguia-se docemente
No pleno azul, preciosa.
 

Agora está prateada
E mais brilhante também.
O luar banha o jardim
E a arve em flor o retém.
 

Move-se à volta da Terra,
Que o Senhor pra nós criou,
Astro lindo, abençoado,
Que o Sol sempre iluminou.

 
Mais será para os vindouros
Como foi pra nossos Pais,
Tranquila inspiradora
De singelos madrigais.
 
Maria da Fonseca


domingo, 20 de abril de 2014

Ressurreição do Senhor

 
 
 



Tão triste, todos chorámos
A passada Sexta-Feira.
Todos nós A venerámos,
Tua Hora Derradeira!

Hoje a Esperança renasceu,
O Sol a dar seu sinal,
Nossa alma se comoveu
Ante a Vigília Pascal.

Como há tanto tempo ido
Os três dias decorreram.
Teu Corpo fora perdido
Quando por Ele acorreram.

Madalena mui chorava,
Roubaram o Seu Senhor.
Nem sentiu quem a chamava,
Toda entregue à Sua Dor.

Foi Jesus ali presente,
Ressuscitado, que fala!
Rezou a Igreja oferente,
Sua alegria não cala.

Aleluia! Páscoa Santa!
Está connosco o Senhor!
E nosso coração canta
Pelo Seu Divino Amor.
 
Maria da Fonseca