sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Inverno a Chegar

 
foto de Maria João Costa
 
 
O Sol brilha finalmente
Neste outono alterado.
E a nortada de repente
Sopra forte do seu lado.

 
As árvores sacudidas
Soltam as últimas folhas
Que caem, aves feridas,
Sobre as primeiras escolhas.

 
Piso um tapete espesso
De várias e incertas cores.
E enquanto ando, arrefeço.
É o vento e seus favores.

 
O casaco, eu aconchego,
Meu cabelo em desalinho,
No ar só desassossego,
Mas eu sigo o meu caminho.

 
O inverno a bater à porta.
As arves quase despidas,
O frio não se suporta,
Nem as chuvas repetidas.

 
Só me conforta a ideia
De que Jesus vai nascer.
Nossa casa vai estar cheia
E a Sua Luz, a aquecer!
 
Maria da Fonseca

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fauna & Flora, da matéria das estrelas Livro de Ilona Bastos

 
 
 
"Fauna & Flora" reúne crónicas, contos, prosa poética e poesia inspirados na surpresa, emoção e deleite que nos suscitam os animais e as plantas presentes no nosso quotidiano predominantemente citadino: as sementes que subitamente germinam num canteiro, as flores que perfumam a avenida, as árvores dançantes ao vento, os jardins, os melros, o cão, o gato, a lagartixa, os besouros que entram, voando, pela cozinha adentro. Enfim, a Natureza que emoldura os nossos dias.
 
Poderíamos pensar que a vivência nesta selva de betão invadida pela tecnologia nos afastaria da Natureza. Mas isso não corresponde à realidade. Não só a Natureza encontra meios de se afirmar, como a sensibilidade humana procura, desvenda, acarinha todos os seus sinais de vida, e neles se aninha como sua parte integrante.
 
As nossas emoções, pensamentos e devaneios encontram raiz e expressão na Natureza, sempre presente.
 
 
Recomendo a leitura deste livro que me encantou.
Um abraço à querida autora que muito admiro.
 
 

Maria da Fonseca 
 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Lua Brilhante


 
 
A Lua cheia aparece
Por detrás do prédio em frente,
Bela, redonda acontece,
Brilhando que nem presente.

 
A seguir sobe no azul,
Tornando-se mais pequena,
E inflete para o sul,
Prateada e serena.
 
 
Mas, se mudo de janela,
Vejo-a noutra posição,
Nem desvio os olhos dela,
Como irradia atração!
 
 
Do lado sul do meu lar
Posso sempre vigiá-la,
Rever assim seu luar,
Com desvelo acompanhá-la.
 

Porque és tão encantadora?!
Eu sinto tanta magia,
Que vou lesta, trovadora,
Admirar-te no outro dia!
 
Maria da Fonseca


domingo, 26 de outubro de 2014

Matizes Outonais

 
 
foto de Maria João Costa
 
 
O outono em seu 'splendor
No viço do meu jardim,
A chuva é uma constante
E prós melros um festim.
 
Podem crer os meus amigos,
Após a relva aparada,
Surgiram tufos de folhas
De haste curta, delicada.
      
As folhas têm ainda
Um formato especial,
Tal como verdes boninas
Ao estilo de área floral.
 
Donde vieram, não sei,
O vento, bem caprichoso,
Trouxe decerto as sementes
Que cobiçou, ansioso.
 
Este tão lindo tapete
De um verde deslumbrante
Faz parte dum basto prado,
Desta casa, circundante.
 
Também as arves me encantam
Nestes dias outonais.
O colorido das folhas,
Matizes especiais!
 
Maria da Fonseca


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Rosas Efémeras

 

Que belas rosas trouxeste
Na quinta-feira passada,
Coloquei-as tal mas deste
Em jarra bem preparada.
 
Uma aberta, encantadora,
De pétalas cor de rosa,
Outra em botão, sedutora,
De postura graciosa.
 
Uma lindeza ficaram
No "sideboard" da sala,
Mas tão depressa murcharam,
A minha voz não se cala.
 
Tratei-as com todo o amor,
O que estava acontecendo?
Perderam o seu frescor
E foram esmaecendo.
 
Nem uma pétala só
Mudara de posição,
E eu senti tanto dó
A despertar emoção...
 
Como o botão não aberto
Que curvara magoado,
Ficou a bater incerto,
Meu coração contristado!
 
Maria da Fonseca

sábado, 11 de outubro de 2014

Os Pirilampos

 
 




As estrelas estão no céu,
Eu sinto-me arrefecer.
O clima é de primavera,
Vai longe o entardecer.

 
O meu marido adorado
Iluminou a janela.
Atravessei o jardim
Em harmonia singela.
 
 
Mas, sobre a relva escura
Noto algo diferente,
Belos salpicos de luz
Dum verde fosforescente.
 
 
-Só podem ser pirilampos!
E procuro, admirada,
Os insetos pequeninos
Desta noite encantada.

 
Porém só luzinhas verdes
Aparecem à distância,
Como pedacinhos de astros,
Dispersos com elegância.
 
 
Chego a casa satisfeita
Com a imagem que vi,
E agradeço ao meu Bom Deus
A magia que senti.
 
Maria da Fonseca






sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Nossa Senhora




Na capelinha das aparições
Ajoelhada, eu rezo à Senhora,
Com muita Fé, as minhas orações,
Pela humanidade sofredora.

 
Desde que nasci, eu fui protegida,
Em corpo e alma sempre abençoada.
Como teria sido a minha vida
Se à Senhora não fora confiada?

 
Ao tempo também houve fomes, guerras,
Crises, epidemias, acidentes...
Agora destroem lares e terras
Dos seus irmãos, em lutas permanentes.

 
Desdizem o seu próprio pensamento
A agredir 'inda mais nossa cultura.
E as gentes propagam seu lamento
Perante autores de incrível loucura.

 
Recolhida, peço a Nossa Senhora
Que proteja e guie as gerações,
Junto a Deus seja a conciliadora.
A Paz viva em todos os corações!
 
 
Maria da Fonseca


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

No Jardim do Éden

 
 




Se a esplanada me encanta,
O jardim é admirável,
Exótica cada planta
No canteiro desejável.
 
 
Cobrir do Sol, quem se senta,
Dos guarda-sóis, a missão,
Bebida que dessedenta,
Pedir rápido ao garção.
 
 
De verga envernizada,
Eu escolhi a cadeira,
Donde desfruto, sentada,
Observar cada palmeira.
 
 
Os arbustos matizados
Do verde ao amarelo
Pelo jardim espalhados
Atendem ao meu anelo.
 
 
A escova-de-garrafa,
De origem australiana,
Premeia o que a fotografa
Co'uma linda flor ufana.
 
 
Este jardim de beleza
Ao do Éden eu comparo,
Quer por sua singeleza
Quer p'lo ambiente claro.
 
 
O livro já tinha eu lido
Há alguns anos passados,
E em harmonia vivido
Momentos sempre agradados



a) tarde de verão no Estoril Garden (2014)
 
Maria da Fonseca


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Palavras

 




Quantas palavras bonitas
A nossa língua possui,
Quer faladas ou escritas,
Sempre o sentir as inclui.

 
O escritor as faz brilhar
Em narrações criativas,
O poeta as quer cantar
Em estrofes exclusivas.

 
Simples, ágeis, coloridas
Descrevendo a natureza.
Outras intensas, sentidas
Em memórias de grandeza.
 
 
Velas vogando no mar
No animado verão,
O passarinho a piar
Faz jus à inspiração.
 
 
E as palavras seguem breves,
Carinhosas, radiantes,
Algumas 'inda mais leves,
Delicadas e tocantes.
 
 
Assim flui a língua amada,
Orgulho de todos nós,
Famosa e bem tratada
Desde o tempo dos avós.
 
Maria da Fonseca


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Tarde de Agosto

 
 
 

Agosto entrou sem calor,
Por aqui até choveu,
Mas não foi desconfortável
Para quem o recebeu.


A temperatura amena
Agradou ao ser humano,
E a água essencial
Regou as plantas sem dano.
 

O Sol tenta aparecer.
Seja o dia promissor
Neste verão menos quente.
Vou sair com meu amor.
 

Iremos pois de mão dada
Bem mesmo ao cair da tarde.
A luz do Sol a refletir
Enquanto o poente arde.


O ar leve, apetecível,
Soprará do rio Tejo,
E a sua transparência
Tornará lindo o que vejo.

 
 
Admiraremos as flores
Suspensas de arves copadas,
E com fruto, os abrunheiros
De folhas acastanhadas.

 
Buganvílias mimarão
A rua meio deserta,
Os pássaros piarão
Na sua morada certa.
 

Voltaremos para casa
Numa perfeita harmonia.
Eu, feliz, pensando em ti,
Sempre a minha companhia.
 
Maria da Fonseca

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sobre uma Flor...

 
 
 


Não me parece viável
Colher a flor anilada,
Que permanece amável,
Suspensa de uma ramada.

 
Ao longe é como uma rosa,
Mas se a posso ver de perto
É ainda mais formosa,
Cacho de flores aberto.

 
Aplicá-la no poema
É pois despropositado,
Perder-se-ia o meu tema,
Antes de o ter terminado.

 
Em breve ela murcharia.
Dar-me-ia tal desgosto,
Que presto eu deixaria
De a cantar, a meu gosto.
 

Assim, ainda a verei
Enquanto o v'rão permitir,
Da janela a espreitarei
Entre irmãs a competir.
 
Maria da Fonseca


terça-feira, 15 de julho de 2014

Flores Silvestres

 
 

As florzinhas amarelas,
De corolas pequeninas,
Surgem na berma, singelas,
Alegres que nem meninas.

  
Outras de hastes flexíveis
Dançam ao sabor do vento,
Delicadas e sensíveis,
Apelam ao sentimento.

  
Há também as aniladas,
Nova pose, mais perfeitas,
Parecem até plantadas
Por jovens mãos escorreitas.

 
Na verdade são silvestres,
O Senhor, seu jardineiro,
Espalha as flores campestres
A enfeitar o mundo inteiro.

 
Enquanto O puder louvar
Pelos dons da Criação
Nunca O deixarei de amar
E rezar minha oração.
 
 
Assim ao subir a escada
A dar-me o vento no rosto,
Sinto-me mais animada,
P´la vida tenho mais gosto!
 
Maria Fonseca


sábado, 24 de maio de 2014

Rosas

                                                                               
 
 
Eu quero cantar as rosas
Por tão lindas elas serem.
Brancas, rosa ou vermelhas,
Belas cores me of'recerem.
 

Onde estão, elas encantam,
Quer no quintal da vizinha,
Na sebe da viscondessa,
Ou na antiga capelinha.
 

Também há quem as coloque
Nas campas dos mais queridos,
Porque eram as preferidas,
Em vários tons coloridos.
 

 
Têm espinhos, eu sei,
Mas não s'rá essa a razão
Pra deixar de as admirar,
Gratas ao meu coração.
 
 
Reverso tem a moeda,
O gelo pode queimar.
Não há amor sem ciúme
E até o doce, amargar.
 
 
Rosas não há sem espinhos,
Mas, de pétalas macias
Agradecem ao bom Deus
A vida, todos os dias.
 
Maria da Fonseca

sábado, 3 de maio de 2014

Minha Mãe, Minha Mãe! Poema de Guerra Junqueiro

 
 
Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!...

(...)

A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira,
Como junto dum leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo de oliveira!
 
Guerra Junqueiro
(1850 - 1923)
 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Lua Inspiradora

 
 
 
 
A lua branca, além,
Quando há pouco entardeceu,
Tal, o Poeta a cantou,
Ia em triunfo ao céu.
 
 
Como a alma de um justo,
Pura, terna, radiosa,
Erguia-se docemente
No pleno azul, preciosa.
 

Agora está prateada
E mais brilhante também.
O luar banha o jardim
E a arve em flor o retém.
 

Move-se à volta da Terra,
Que o Senhor pra nós criou,
Astro lindo, abençoado,
Que o Sol sempre iluminou.

 
Mais será para os vindouros
Como foi pra nossos Pais,
Tranquila inspiradora
De singelos madrigais.
 
Maria da Fonseca


domingo, 20 de abril de 2014

Ressurreição do Senhor

 
 
 


Tão triste, todos chorámos
A passada Sexta-Feira.
Todos nós A venerámos,
Tua Hora Derradeira!

Hoje a Esperança renasceu,
O Sol a dar seu sinal,
Nossa alma se comoveu
Ante a Vigília Pascal.

Como há tanto tempo ido
Os três dias decorreram.
Teu Corpo fora perdido
Quando por Ele acorreram.

Madalena mui chorava,
Roubaram o Seu Senhor.
Nem sentiu quem a chamava,
Toda entregue à Sua Dor.

Foi Jesus ali presente,
Ressuscitado, que fala!
Rezou a Igreja oferente,
Sua alegria não cala.

Aleluia! Páscoa Santa!
Está connosco o Senhor!
E nosso coração canta
Pelo Seu Divino Amor.
 
Maria da Fonseca


terça-feira, 15 de abril de 2014

Como a Pomba

 
 
 
 
Como a pomba que tu vês,
Toda de branco vestida,
Matando a sede, elegante,
No regato da Avenida.
 

Sua cauda, armada em leque,
Tem formosa pena preta.
Tu sabes que é sempre a mesma,
Linda pomba lisboeta.
 

Por perto um pombo arrulha,
Atento, enamorado.
Porém, retira-se a pomba
Sem olhar o apaixonado.
 

Ontem o pombo atrasou-se
E a pomba branca, nervosa,
Dum lado, andava, pró outro,
Inquieta, receosa.
 

Tal e qual, quando não vejo
Meu amor perto de mim,
A pomba atentava ao longe,
Procurando-o no jardim!
 
 
 
Maria da Fonseca